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Relevância da Obra

Foram diversas as personalidades do mundo das letras e da literatura portuguesa que se pronunciaram sobre o valor literário da obra de Joaquim Moreira da Silva, em testemunhos escritos, de que se apresentam algumas citações.

  • Ferreira de Castro (1898 –1974), ilustre escritor português, escreveu o texto “Um poeta instintivo” in memoriam do Poeta Carpinteiro, publicado no livro A lira do povo, em 1967. Nele testemunha que Moreira da Silva foi ao longo da sua vida, tão pobre como sobressaltada, um poeta da causa social. Não poucas vezes alguns belos ritmos lhe desceram da pena para as muitas páginas que escreveu, agora esquecidas, mas que voltam a ressoar, como as velhas caixas de música, logo que as abrimos. (p. 127). Acrescenta que ele tinha uma alma de poeta, poeta instintivo, espontâneo, quase sempre de forte expressão popular (p. 128)
  • Fernando Assis Pacheco (1937 – 1995), poeta, ficcionista, jornalista e crítico literário, no artigo “Moreira Cego, o anarquista”, publicado no Jornal Ilustrado (O Jornal, 24 a 30 de junho de 1988), afirma: Moreira Cego, que com António Aleixo, Manuel Alves e outros poucos domina a poesia popular portuguesa do século, tem um sentido muito vincado do narrativo a par do gosto conceituoso, e até gnómico, que faz a pequena glória do cauteleiro algarvio. Diríamos que ele é mais completo do que Aleixo – e melhor servido de oficina do que Alves.”
  • Arnaldo Saraiva (nascido em 1939), professor emérito da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e renomado especialista em literatura, incluindo literatura popular, escreveu o prefácio para o livro  Joaquim Moreira da Silva Antologia poética, editado pela Câmara Municipal de Vila do Conde em 1987, do qual se retira o seguinte excerto: E no entanto, o poeta-carpinteiro, por vezes ingénuo e por vezes utópico, frequentemente moralista e frequentemente irónico, é quase sempre um poeta inspirado, que não perde em confronto com outros «poetas populares», hoje bem mais conhecidos, como CalafateManuel Alves e António Aleixo. (…) E podia até escrever, com justificado orgulho:
 Mas todos os canalhas,
Pulhastras, pulhas, poltrões;
Eu com a minha caneta,
Afrontei perseguições
E fui-lhes rasgando a máscara
Diante das multidões.

Com minha lavoura preta
Feita nesta agra branca
Levaram coças tremendas...
Que isto franquezinha franca,
Sovas da minha caneta
Doem mais que uma tranca!

Eu sofro do coração…
Decerto findarei breve!
Mas como já tenho feito
O que um homem fazer deve,
Também já pouco me importa
Que venha a «Morte» e me leve.

" Quem escreve coisas assim não é um «poeta popular» - é um poeta. Que sabe de carpintaria poética, e merece ser lido e lembrado...

  • Francisco Topa (nascido em 1966), Professor associado com agregação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto afirmou na apresentação da antologia de Joaquim Moreira da Silva A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia, na Reitoria da Universidade do Porto (03/09/2024): Joaquim Moreira da Silva é um bom exemplo da melhor poesia popular: (…) sobretudo pela obra que nos deixou, que é efetivamente uma obra, no sentido de um conjunto orgânico, coerente, bem distinto do que muitas vezes acontece com poetas ditos populares (…). (…) uma obra em que alguns de nós talvez vejam apenas o que fomos como povo, mas em que outros tantos verão aquilo que nos define como humanos: a luta do oprimido contra o opressor, o triunfo da justiça, o primado do humor e do sarcasmo, a finura da ironia.”

Estes consagrados escritores e homens de letras destacam, assim, aspetos relevantes da obra de Joaquim Moreira da Silva, colocando-o, ainda, ao nível do mais conhecido e reconhecido poeta popular português, António Aleixo.

Características Formais

As estruturas versificatórias correspondem às que caracterizam a poesia popular portuguesa: predominância de quadras ou sextilhas, rima cruzada e versos de sete sílabas. Há vários poemas de mote em que uma quadra é glosada em quatro décimas. A linguagem é muito simples, recorrendo frequentemente a plebeísmo, provérbios ou frases feitas. Ao gosto popular correspondem também muitos temas, como as histórias de amor trágicas, o maniqueísmo das lutas entre o Bem (os trabalhadores pobres) e o Mal (os poderosos) que terminam quase sempre com o triunfo do Bem, o humor, a malícia brejeira, a ironia.

Em muitos casos, os poemas assumem formatos específicos, também ao gosto popular. Além dos poemas de mote, surgem as cantigas ao desafio, as adivinhas, as louvações e os pasquins. Foram principalmente estes últimos que o povo manteve associados à memória de um homem justo e bom, pois, nesses versos, Moreira da Silva denunciava injustiças sociais e os poderosos que as cometiam, ora por sua iniciativa, ora a pedido ou por encomenda dos injustiçados.

Além de poemas, Moreira da Silva tem alguns folhetos didáticos. Um deles, Método de leitura, é uma espécie de pequeno manual de leitura e escrita, com o método que ele próprio criou. Os outros três têm problemas de Matemática, em prosa ou em verso, e alguns textos com conhecimentos diversos, que seriam também destinados às aulas noturnas que dava aos seus conterrâneos.

As composições poéticas de Moreira da Silva, bem como os problemas de Matemática, as instruções várias para aprendizagem da escrita, da leitura, e de outras matérias lecionadas na escola primária, figuram num volume Manuscrito, o qual foi conservado na família, tendo chegado até à posse das suas netas. Estas manifestaram a vontade de o depositar na Biblioteca Municipal José Régio, a qual ficou guardiã deste único e precioso documento.

Classificação Temática

Os poemas de Moreira da Silva distribuem-se pelas seguintes categorias, que, no entanto, se interpenetram:

anarquia e, sobretudo, o anticlericalismo que o poeta professava são temas que surgem transversalmente na sua obra. Se estes temas não são comuns na poesia popular, são-no o tipo de histórias em que se enquadram, como os amores contrariados, o desmascaramento de intrujões (padres, neste caso) que enganam o povo, ou as cantigas ao desafio.

Circulação e distribuição

Enquanto Moreira da Silva não aprendeu a escrever, os seus versos circulavam apenas oralmente. A partir daí, muitos foram editados em pequenos folhetos de cordel ou em folhas volantes, que passaram a coexistir com a circulação oral. Estas publicações eram vendidas às pessoas conhecidas e a quem as procurava, ou em locais de maior circulação, por exemplo, à saída da missa. Durante a sua vida foram também publicados três livros. Alberto Moreira, o filho do poeta, tipógrafo de profissão, deu inestimável apoio ao seu pai para a edição de grande parte da sua obra, com especial destaque para os tempos em que a censura obrigava a uma edição clandestina. Os pasquins clandestinos eram distribuídos de noite, colocados por baixo das portas. Os folhetos de cordel constituem a maior parte da obra publicada, ascendendo a mais de meia centena. Também os pasquins eram numerosos, mas muitos não chegaram aos dias de hoje.